Brasil Dairy Trends 2020

242 sustentabilidade e naturalidade Brasil DairyTrends 2020 9.1 Sustentabilidade e sistemas alternativos de produção agropecuária O desenvolvimento da agricultura foi determinante para o surgimento e a evolução das civilizações. Ela teve início há cerca de 10 mil anos e passou por várias transformações, sendo as mais significativas as que ocorreram a partir do sé- culo XVIII, propiciadas pelo desenvolvimento científico. Até então, pode-se afirmar que toda a produção era de certa for- ma orgânica, pois as fazendas utilizavam poucos pesticidas e fertilizantes. Quando o solo se exauria, a solução era abando- nar a área e procurar outro local (COOPER, 2014). A utilização de fertilizantes inorgânicos iniciou-se ainda no século XVIII, com a descoberta de que a adição de ácido sulfúrico a rochas fosfáticas resultava no cálcio superfosfato, que disponibilizava o fósforo para as plantas, e com a utili- zação de salitre do Chile e fezes de aves e morcegos vindas do Peru como fontes de nitrogênio. Porém, essas fontes de nitrogênio foram se tornando escassas e caras. Foi somente depois de I Guerra Mundial que os fertilizantes à base de nitrogênio tornaram-se disponíveis em larga escala, com o de- senvolvimento do processo Harber-Bosch, no qual a amônia é sintetizada a partir de nitrogênio e hidrogênio e depois neu- tralizada com ácido nítrico, resultando no fertilizante nitrato de amônio (COOPER, 2014). A partir da década de 1950, teve início nos EUA um pro- grama chamado revolução verde, idealizado para aumentar a produção agrícola no mundo por meio do uso intensivo de insumos como fertilizantes sintéticos, sementes melhoradas geneticamente, defensivos, mecanização, técnicas de irriga- ção, plantio, colheita e manejo, entre outros. Esse programa foi exitoso e espalhou-se pelo mundo, sendo hoje a base da agricultura convencional. Paralelamente, a partir de 1924, teve início com Rudolf Steiner, na Alemanha, a agricultura biodinâmica, um dos vários tipos de agricultura alternativa ou sistema alternativo de produção (Figura 9.1), genericamente chamados de or- gânicos. Na Inglaterra, Eve Balfour, em parceria com Ryan Nelson, faz a primeira comparação detalhada entre um cul- tivo orgânico e um convencional, que ficou conhecida como Haughley Experiment. Em 1943, Eve Balfour publica o livro “The living soil” e, em seguida, funda a Soil Association, ins- tituição devotada aos orgânicos e que cresceu muito de lá para cá. Nos EUA, Jerome Cohen, utilizando o pseudônimo de J. I. Rodale, foi o mais influente expoente dos orgânicos, utilizando-se da Editora Rodale e do Instituto Rodale para promover uma intensa divulgação dos conceitos da produ- ção orgânica, iniciada com a publicação do livro “The organic front”, em 1948. A publicação do livro “The silent spring”, de Rachel Carson, contendo críticas ao sistema convencional de produção acabou por fortalecer o movimento em prol dos orgânicos e muitos consideram esse marco o início do movi- mento ambientalista (COOPER, 2014). Os sistemas alternativos de produção também se espa- lharam para vários países. No Brasil, a publicação do livro “Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro”, de José Lutzenberger (1999), pode ser considerado o início do am- bientalismo no País. Logo em seguida, a publicação do livro “Manejo ecológico do solo: A agricultura em regiões tropi- cais”, de Ana Maria Primavesi (1990), abre caminho para o crescimento dos sistemas alternativos de produção. Outro marco importante para os sistemas alternativos de produ- ção foi a publicação da Lei 10831/2003, que regulamentou todo o setor. De acordo com Ormond et al. (2006), na tentativa de de- fender um nicho de mercado no qual pretende atuar, cada grupo alternativo procura caracterizar a sua produção com um conjunto de conceitos próprios, que incluem desde filoso- fia (às vezes, até preceitos religiosos) até a definição do tipo de insumo utilizado. Na realidade, quase sempre se trata de um esforço de diferenciação de processos de produção e de produtos, com o objetivo de aumentar a parcela de mercado. Na Figura 9.2 e Figura 9.3 são apresentadas as definições de alguns sistemas alternativos de produção agrícola voltados para a sustentabilidade e naturalidade.

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